Maria

de Regino

Escritora, tradutora, ilustradora e professora de literatura
O Pequeno Mago

Maria de Regino

A noite no deserto era cheia de perigos. Melchior, o mais velho dos magos, desenhou com seu cajado um grande círculo na areia. Os homens e os camelos da caravana se acomodariam ali, dentro do círculo mágico, que os protegeria das serpentes e dos escorpiões.

Aziz deitou-se próximo à fogueira, ao lado de seu mestre, o mago Baltasar, e olhou no céu o astro que vinham seguindo pelo deserto. Aquela estrela anunciava um grande prodígio: o nascimento do filho de Deus. Em terras do Oriente, avisados em sonhos por um anjo, os magos Melchior, Gaspar e Baltasar puseram-se a caminho.

No céu salpicado de estrelas destacava-se, em sua grandeza e esplendor, o brilho solitário do astro que os guiava entre as dunas. Contemplando a estrela, Aziz pensou em sua vida, nas mágoas que pesavam em seu coração de menino e em sua solidão.

Aziz era um garoto miúdo, de dez anos, que havia perdido a família numa guerra entre tribos do deserto. Se não fosse o mago Baltasar, poderia estar morto ou escravizado. Agora Baltasar era seu mestre. Sob seus cuidados, pouco a pouco, ele ia descobrindo os segredos dos números e das letras que cobriam velhos pergaminhos.

Logo começaria a estudar os caminhos que as estrelas percorriam no céu. E um dia, saberia interpretar os sinais enviados pelos astros, como o brilho sobrenatural daquela estrela que por semanas vinham seguindo, atravessando as dunas do deserto.

Mais do que tudo no mundo, Aziz queria ser como Baltasar. Os olhos do mago eram negros, profundos, e sua pele, escura como a dele. Embora ainda fosse jovem, seu mestre era um homem sábio, dono de um coração generoso, e famoso por seus poderes mágicos.

Um dia, pensava Aziz, dominaria todos os segredos da magia, para se vingar dos que haviam destruído sua família. Seu coração, endurecido pelo rancor, parecia pesar no peito como rocha do deserto, mostrando ser verdade o que dizia Gaspar, um dos magos: nada pesa tanto na alma como um coração cheio de mágoas e vazio de perdão.

O sol brilhava alto no céu quando a caravana chegou ao palácio de Herodes, soberano daquelas terras. Diante do rei, o mago Baltasar perguntou:

— Onde está o menino, filho de Deus e rei de Judá? Vimos sua estrela brilhar no Oriente e viemos honrá-lo.

Herodes chamou o grande sacerdote do templo de Jerusalém e perguntou o que diziam as profecias sobre o local de nascimento do ungido de Deus.

— Nascerá em Belém, majestade. Assim está escrito. — respondeu o sacerdote.

No final da tarde, ao se despedir dos magos, Herodes ordenou que o avisassem, assim que encontrassem a criança, pois também desejava honrá-la com ricos presentes. Os homens voltaram aos seus camelos e atravessaram o portão da cidade, seguindo pela estrada que levava a Belém. No entanto, ao se afastarem das muralhas, Baltasar alertou seus companheiros:

— Herodes mentiu. Não deseja honrar a criança, mas destruí-la. Voltaremos para casa por outro caminho. Assim não o encontraremos outra vez.

Era madrugada quando chegaram aos arredores de Belém. A estrela os guiou até uma gruta, usada por pastores para guardar o feno dos animais. Lá estava uma mulher muito jovem, ao lado de seu marido, amamentando uma criança.

Os magos reconheceram naquele menino o Messias, anunciado pela estrela, e se adiantaram para entregar o ouro, o incenso e a mirra que traziam como presente.

Aziz olhava de longe. A mulher era tão linda… Lembrou-se de sua mãe e, por um momento, sentiu o coração pesar ainda mais. O bebê mamava guloso, cheio de vontade de viver. Lembrou-se do que Baltasar havia dito sobre Herodes e se aproximou um pouco mais. Não compreendia como alguém podia pensar em fazer mal a uma criança tão pequena.

Com os olhos cheios de lágrimas, Aziz lembrou-se de sua família, morta por homens como Herodes. Havia jurado que um dia, quando fosse um mago poderoso, destruiria os que haviam matado sua gente. O ódio em seu coração era tamanho, que seu peito começou a doer.

Nesse momento, o menino deixou o seio de sua mãe e olhou Aziz. Seus olhos, cor do céu noturno, brilhavam como se guardassem a luz de todas as estrelas. Ao ver que o bebê lhe estendia um bracinho, Aziz se aproximou ainda mais.

Queria tocar a mãozinha que parecia chamá-lo e beijar os pés pequeninos, inquietos sob a manta branca de lã. De repente, o menino sorriu. O coração de Aziz, como por um doce milagre, esvaziou-se de todas as mágoas e do ódio que o fazia pesar.

Buscando caminhos seguros, a caravana voltava para a Pérsia. Ao ver o brilho de prata da luz da lua nas águas do rio Jordão, o pequeno mago lembrou-se da luz que brilhava nos olhos do menino e, de repente, percebeu que já não se sentia só.

Seu coração, muito leve, estava cheio de paz e alegria. Pensou no dia em que seria um grande mago. Graças ao sorriso do menino, porém, sua magia não seria feita das trevas da vingança. Combateria as forças do mal com a luz da esperança e do amor.